por Barbara Gurgel

Escreva para melhorar mundo a sua volta, e não para moldá-lo à sua imagem.

Esta semana me vi confusa diante da publicação, em uma rede social, de certo cantor brasileiro que se dirigia ao povo de seu país como “pedreiros brasileiros” e dizia que não os queria em seu show “com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, gritando nome de time”. Esclareço de antemão que não venho aqui criticar a opinião do famigerado artista, conhecido por Ed Motta, até porque o show é dele e cada um faz o que quer com a sua “figura”.

O ponto principal deste artigo é assinalar alguns equívocos que cometemos, ao publicar em redes sociais de alto alcance, nossa opinião ou revolta diante de grupos sociais dos quais não somos familiarizados. Ninguém é obrigado a ir ao show do Ed Motta, mas ele, muito menos, deveria ter agido de forma tão indelicada, ao expressar sua preferencia por fãs intelectuais e que falam inglês.

Eu não o condeno pelo favoritismo que possui, mas minha perplexidade maior é a banalidade desta intolerância com a qual vivemos hoje em dia.

Apesar de tanta evolução, ainda estamos longe de atingir alguma igualdade social, somos pobres, ricos, intelectuais ou nem tanto, falamos inglês ou apenas português. Quando o Ed Motta escreveu sobre sua intolerância a certas pessoas que se dirigiam ao show dele, um alvoroço cibernético tomou conta das redes sociais, em que todos o condenavam e o chamavam de hipócrita por ter escrito tais ofensas à população brasileira.

Caríssimos, todos somos um pouco repressivos no cotidiano, e posso citar situações em que pensamos de forma intolerante, tal qual Ed: Quando nos irritamos na fila do banco diante do atendimento prioritário que nos atrasa, somos intolerantes ao público idoso. Quando nos revoltamos pelo fato de no shopping só ter vaga disponível para deficientes, somos intolerantes com quem não tem a mesma facilidade de locomoção. Quando sentimos repulsa por perceber duas pessoas do mesmo sexo andando de mãos dadas, estamos sendo inflexíveis diante de todas as formas de afeto que existem no mundo. Quando olhamos com desdém para uma pessoa pela cor da sua pele, pelo tamanho do seu nariz, pela dimensão de seu corpo, estamos sendo hipócritas em pensar que todos deveriam seguir um padrão correto de ser e vestir criado por nós mesmos. Mas espera aí… Quantos somos no mundo para criar tantos padrões perfeitos? Bilhões. Logo, não há padrões perfeitos a serem seguidos.

Desta forma, não há o que se discutir sobre o certo e o errado na polêmica do cantor em questão. Uma coisa é você não gostar da cor azul e não se vestir espelhado nela. Outra coisa é sair por aí apedrejando carros e casas azuis, e fazendo abaixo assinado pra mudar a cor do céu. Se vivemos em um mundo de intolerância, a flexibilidade nas relações consiste em tolerar o outro dentro daquilo que não nos agrada e estudar nossa incompreensão de modo a melhorá-la.

Freud disse: o homem é dono do que cala e escravo do que fala. Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo.

Hoje sabemos muito mais sobre Ed Motta, do que sobre as músicas dele ou da qualidade dos fãs dele. Ed foi escravo de sua própria intolerância, e não havia de ser diferente.

Pare de usar as redes sociais como mural de antipatia. Quem fala o que quer, escuta o que não quer, já dizia o ditado popular, mas acho que quem só fala inglês e não lida com a língua portuguesa de forma amorosa deve desconhecê-lo.

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